Um relato sobre a Providência Divina
Uma Noite em Minas Gerais
Quando os Céus Parecem Conspirar a Nosso Favor
Algumas histórias começam como tantas outras.
Uma viagem sem pressa. Uma estrada tranquila um casal sem pressa e o silêncio acolhedor do interior de Minas.
Mas existem histórias que, à medida que se desenrolam, revelam uma sequência de acontecimentos, uma verdadeira geometria tão precisa que se torna difícil atribuí-las ao simples acaso.
Esta é uma delas.
Se eu a tivesse lido em um livro chamado Pequenos Milagres, provavelmente a consideraria apenas uma bela história. Como a vivi, porém, passei a enxergá-la como uma inesquecível demonstração da Providência Divina (Hashgachá Pratit).
Minha esposa e eu percorríamos o Sul de Minas Gerais sem roteiro rígido, movidos apenas pelo prazer de conhecer o Brasil por dentro, pelas estradas que raramente aparecem nos cartões-postais — como costumamos fazer em algumas de nossas férias.
Havíamos acabado de passar por Borda da Mata, a tranquila “capital do pijama”, onde até na estrada o sinal de celular parece pedir licença antes de desaparecer. Seguíamos em direção a Pouso Alegre.
Estávamos entrando no dia 22 de Tamuz do calendário judaico. O frio do início de julho se intensificava rapidamente, enquanto o sol descia em direção ao horizonte, tingindo de dourado as montanhas do Sul de Minas e anunciando a chegada da noite.
Foi então que tudo mudou.
Meu Honda CR-V, com 112 mil quilômetros e mantido com o melhor cuidado de quem é engenheiro mecânico de formação, acendeu a luz amarela da injeção eletrônica no meio de uma longa subida.
Pista de mão dupla.
Atrás de nós, caminhões pesados.
Em poucos segundos, o motor perdeu força, como se alguém estivesse desligando lentamente sua vontade de continuar. Com muita dificuldade e destreza, consegui conduzir o carro até um estreito acostamento de terra, esburacado e tomado pelo mato.
Cada caminhão que passava fazia o veículo estremecer com o deslocamento de ar, lembrando-nos da fragilidade daquela situação.
Naquele instante, eu ainda não sabia, mas um pequeno furo no radiador havia esvaziado silenciosamente todo o líquido do sistema de arrefecimento. O motor superaqueceu e o calor intenso queimou uma das quatro bobinas de ignição.
Paradoxalmente, foi essa bobina que salvou o motor.
Se ela não tivesse falhado naquele exato momento, eu teria continuado dirigindo por mais dois ou três minutos. Tempo suficiente para queimar a junta, empenar o cabeçote, fundir os pistões e destruir o motor.
A bobina queimou para o motor sobreviver. O que, à primeira vista, parecia má sorte, revelou-se proteção!
Naquele momento, porém, eu não enxergava providência alguma.
Parado no acostamento, com o capô aberto, sem sinal de celular e vendo a noite cair, eu via apenas um enorme problema.
Após caminhar por algum tempo e insistir em sucessivas tentativas, finalmente conseguimos sinal suficiente para chamar um guincho, que nos levou até um posto de combustível às margens da rodovia, nas redondezas de Borda da Mata.
Ali começava uma sequência de acontecimentos que, olhando hoje para trás, parece cuidadosamente encadeada como se fosse um quebra-cabeças montado peça por peça.
O proprietário do posto era um senhor evangélico chamado Éder, que nutria um carinho sincero pelo povo judeu.
Bastou a ele ver-me utilizando a kipá (solidéu) para que nos tratasse como velhos conhecidos.
Pegou imediatamente o telefone e ligou para o único mecânico amigo disponível naquela noite em toda a região.
Quarenta minutos depois, ele chegou.
O nome do mecânico? Nataniel, que significa “Dado por D-us”.
Mal olhou para mim e abriu um sorriso.
— Eu conheço o senhor!
Confesso que fiquei alguns segundos sem reação.
Nathaniel havia lido um dos meus livros sobre Numerologia Judaica e Guimátria, cuja capa estampava minha fotografia.
Naquele instante, ele deixou de ser apenas um mecânico encontrado no caminho. Tornou-se mais um elo de uma sequência de acontecimentos que eu jamais conseguiria atribuir ao acaso.
Tornou-se parte de uma história que jamais esqueceríamos.
O problema, entretanto, continuava sério.
Na cidade, não havia ninguém que pudesse consertar o radiador, tampouco quem dispusesse da bobina específica para o carro.
Somente em Pouso Alegre, cidade a 30 km de distância.
Qualquer profissional recomendaria:
— Acione o seguro. Leve o veículo para São Paulo.
Era a solução lógica. Mas não foi a que aconteceu.
Durante quase duas horas, já noite adentro e sob uma iluminação precária, Nathaniel desmontou a frente do carro com impressionante paciência.
Retirou o radiador e disse que, bem ao amanhecer, seguiria com seu veículo para Pouso Alegre, providenciaria o conserto em uma oficina amiga, encontraria em uma autopeças a bobina correta e voltaria para montar tudo novamente.
Restava outra questão.
Onde dormiríamos?
A região integra o “Caminho da Fé” e, naquela noite, todas as pousadas e hotéis estavam lotados.
Nenhuma vaga.
Mais uma vez, o Sr. Éder pegou o celular.
Ligou para o amigo José Roberto, proprietário de uma pousada local.
Explicou nossa situação.
Do outro lado da linha ouvi uma resposta tão inesperada que parecia beirar o impossível.
Havia um quarto normalmente reservado para ocasiões especiais.
Naquele dia, porém, a reserva fora cancelada de forma repentina.
O quarto estava livre. Como se, de algum modo, estivesse esperando por nós. E não era um quarto qualquer. Era justamente o melhor de toda a pousada.
Otávio, filho do proprietário, foi pessoalmente nos buscar no posto, carregou nossas malas e nos recebeu com uma gentileza que jamais esqueceremos.
Na manhã seguinte, o senhor José Roberto providenciou um lugar tranquilo para que eu pudesse realizar minhas orações. Terminadas as preces, Otávio conduziu-nos de volta ao posto de combustível.
Por volta das treze horas, após um trabalho cuidadoso e minucioso, o carro estava completamente pronto.
Seguimos viagem.
Ainda percorremos aproximadamente quatrocentos quilômetros por Minas Gerais antes de retornar a São Paulo.
O carro não apresentou absolutamente nenhum problema.
Mesmo assim, por precaução, ao retornar para São Paulo levei o carro ao meu mecânico de confiança, um profissional que há anos cuida dos meus veículos e sempre praticou preços justos, sem jamais sugerir reparos desnecessários.
Scanner.
Inspeção completa.
Revisão detalhada.
O diagnóstico foi imediato.
— Nenhuma sequela do superaquecimento. Está tudo perfeito.
Após examinar cuidadosamente o serviço realizado no interior de Minas, acrescentou:
— Poucos profissionais fariam um serviço com esse cuidado. Um trabalho desse nível custaria facilmente entre R$ 2.000,00 e R$ 3.000,00.
Nathaniel havia cobrado apenas R$ 500.
Meu mecânico balançou a cabeça e concluiu:
— Isso não existe!
Sorri discretamente. Eu também começava a acreditar nisso.
Hoje, olhando para trás, alguém poderia chamar tudo aquilo de grande “sorte”.
- Um mecânico disponível à noite.
- Um profissional que conhecia meu trabalho.
- Um dono de posto disposto a ajudar dois desconhecidos.
- Uma falha elétrica que impediu a destruição do motor.
- Um quarto disponível quando não havia vagas em toda a região.
- Um serviço impecável cobrado por um valor quase simbólico.
Cada fato, isoladamente, já seria improvável.
Todos eles, porém, acontecendo na mesma noite, em perfeita sequência, fazem pensar que havia algo maior regendo cada detalhe.
O Baal Shem Tov ensinava:
“Não há uma única folha de grama que se mova sem que seja pela vontade de D-us.”
Durante muitos anos, essa frase foi, para mim, um belo ensinamento.
Naquela noite, apesar de crer, deixou de ser teoria ou um conceito judaico.
Transformou-se em experiência.
Hoje tenho a impressão de que cada acontecimento encontrou seu lugar exato no momento certo.
Quando eu enxergava apenas paredes, D-us já havia preparado uma porta.
Não consigo provar matematicamente que tudo aquilo foi a mão da Providência Divina.
E, sinceramente, nem sinto necessidade.
Há experiências que pertencem menos ao campo da lógica e muito mais ao da gratidão a D-us.
Sempre que volto a pensar naquela estrada perdida do sul de Minas Gerais, o mesmo pensamento retorna ao meu coração:
Os “Céus” pareceram conspirar, com delicadeza, humor e uma precisão impressionante, inteiramente a nosso favor.
Porque, afinal, o Guardião de Israel não dorme!
Compartilhamos este relato porque, naquela noite, D-us não mudou apenas o rumo de uma viagem.
Revelou-nos, de forma inesquecível, que Sua Providência está presente até mesmo nos menores detalhes da vida.
E assim: “Confie em D-us. Seja forte e levante o seu coração. Confie no Eterno!”
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