Segredos da Parashá Bereshit: A Geometria Sagrada

David Zumerkorn

07/10/2026 - 19:26

Segredos da Parashá Bereshit: A Geometria Sagrada

Bereshit Segredos
A primeira palavra da Torá talvez seja também uma de suas palavras mais estudadas.
בְּרֵאשִׁית, Bereshit, “No princípio”.
São apenas seis letras. Mas, ao longo dos séculos, sábios, comentaristas e cabalistas encontraram nelas uma extraordinária concentração de significados.
Antes, cabe explicar que guimatriót que é o plural de Guimátria, é o estudo da numerologia judaica, permutações e transposiçoes de letras, etc.

As alusões à Criação, ao Shabat (Sábado), à Torá e até ao Mashiach (Messias), entre outras, foram associados à palavra Bereshit que abre toda a Torá.
Neste estudo, vamos explorar de forma suscinta, algumas dessas conexões e descobrir como letras, números e formas podem revelar novas dimensões de Bereshit.

  1. Bereshit e o mistério do número π (Pi)

Comecemos olhando para a própria palavra:
Bereshit ְּברֵאשִׁית
Uma das leituras tradicionais chama a atenção para elementos que podem ser encontrados dentro dela.
As três primeiras letras formam a palavra Bará בָּרָא, que significa “criou”.
É justamente o verbo que aparece logo no início da Torá:
בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים Bereshit Bará E-lohim
“No princípio, criou D-us …”
Mas há ainda outra combinação interessante de letras:
As três últimas letras formam a palavra שִׁית, Shit. A expressão שִׁית (Shit) pode ser associada, em aramaico, ao número seis.
Suas letras e valores numéricos são:
ש Shin = 300
י Yud = 10
ת Tav = 400
Agora acontece algo curioso.
Se utilizarmos o Mispar Katan, método no qual os valores numéricos das letras são reduzidos aos seus algarismos básicos, teremos:
ש Shin: 300 → 3
י Yud: 10 → 1
ת Tav: 400 → 4
O resultado é:
3 • 1 • 4
Ou, visualmente: 3,14
Imediatamente nos lembramos do número π Pi, a famosa constante matemática que começa por 3,14…
O círculo e a Criação
Pi π representa a relação entre a circunferência de um círculo e seu diâmetro.
O interessante é que formas circulares e cíclicas aparecem por toda a Criação.
No macrocosmo, observamos movimentos de rotação, órbitas, planetas, estrelas e estruturas celestes.
No microcosmo, encontramos óvulos, células, estruturas microscópicas, gotas e diversas formas que evocam padrões circulares ou esféricos.
A leitura simbólica é fascinante:
já na primeira palavra da Torá seria possível encontrar uma alusão matemática à geometria presente na própria Criação.

  1. Por que a Torá começa com a letra Beit (ב)?

Existe uma pergunta clássica:
Se Alef (א) é a primeira letra do alfabeto hebraico (Alef Beit), por que a Torá começa com Beit (ב), a segunda?
A primeira letra da Torá é:
Beit (ב)
Uma explicação tradicional estabelece um contraste entre duas palavras.
אֲרוּר, Arur, “amaldiçoado”, começa com Alef (א).
Já: בְּרָכָה, Brachá, “bênção”, começa com Beit (ב)
Assim, a Torá teria sido iniciada com a letra de Brachá, bênção.
É como se a primeira letra da Criação já transmitisse uma mensagem:
O mundo deve começar com uma bênção.
O número 2 escondido na letra Beit (ב)
A letra Beit (ב) possui valor numérico 2.
E esse número também permite diferentes leituras.
Dois mundos: A tradição judaica fala de Olam HaZé, este mundo e Olam HaBá, o Mundo Vindouro.
A própria letra que inicia a Torá poderia, portanto, apontar para essas duas dimensões da existência.
Duas dimensões da Torá
Também encontramos:
Torá SheBiChtav, a Torá Escrita e a Torá SheBe’al Pé, a Torá Oral.
Mais uma vez, a letra Beit, de valor 2, torna-se símbolo de uma realidade que possui duas dimensões complementares, ou a dualidade que existe no mundo (dia e noite, céus e terra, macho e fêmea) etc.

  1. Os segredos interpolados nas letras de Bereshit

As seis letras de Bereshit בְּרֵאשִׁית também deram origem a diferentes associações e rearranjos interpretativos.
Alguns deles são especialmente interessantes.
בֵּית מִקְדָּשׁ, Beit HaMikdash que significa Templo Sagrado.
A associação entre Bereshit e o Beit HaMikdash transmite uma ideia profunda: o Templo e a presença divina no mundo já fariam parte do propósito da Criação desde o princípio.
יָרֵא שַׁבָּת, Yarê Shabat
A expressão pode ser entendida como:
“Temer” ou “respeitar o Shabat (sábado)”.
A mensagem é que o Shabat não aparece apenas no final dos seis dias da Criação.
Ele é o destino para o qual os seis dias caminham.
Trabalhamos durante seis dias, mas o ciclo somente encontra sua plenitude no Shabat.
בְּרִית אֵשׁ, Brit Esh
Brit significa aliança.
Esh significa fogo.
Temos, portanto:
“Aliança (pacto) de fogo”
O fogo é frequentemente utilizado como imagem de força espiritual e da própria Torá.
A combinação sugere que a existência não é apenas matéria. Existe uma aliança espiritual que acompanha a Criação.
1º de Tishrei – א׳ בְּתִשְׁרֵי
Outra associação tradicional relaciona as letras de Bereshit ao primeiro dia (do mês) de Tishrei, Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico).
Isso conecta a abertura da Torá ao tema da criação do mundo e ao início de um novo ciclo.

  1. Quanto vale a palavra Bereshit?

Agora entramos propriamente no universo da guimátria.
Na guimátria tradicional:
בְּרֵאשִׁית Bereshit בְּרֵאשִׁית = = 913 = (2+200+1+300+10+400)
Esse número também foi relacionado a diferentes ideias espirituais.
Uma delas é a expressão associada a:
בתריג מצות, BeTaryag Mitzvot – Isto é: “Com os 613 mandamentos (preceitos), que é a quantidade de mandamentos encontrada na Torá, lembrando que 6+1+3 = 10”
Considerando métodos tradicionais de equivalência numérica, incluindo o princípio conhecido como im hakolel (acrescentar 1), estabelece-se uma relação entre essas expressões.
A mensagem transmitida é poderosa: o mundo foi criado com um propósito, permitir ao ser humano transformar a realidade por meio das mitzvot (preceitos).

  1. Um cálculo envolvendo os cinco livros da Torá

Existe ainda outra curiosidade numérica.
Observe os valores atribuídos aos nomes dos cinco livros da Torá:
Bereshit, בְּרֵאשִׁית = 913
Shemot, שְׁמוֹת = 746
Vayikrá, וַיִּקְרָא = 317
Bamidbar, בְּמִדְבַּר = 248
Devarim, דְּבָרִים = 256
Somando: 913 + 746 + 317 + 248 + 256 = 2.480
Agora somamos os algarismos:
2 + 4 + 8 + 0 = 14
E reduzimos novamente:
1 + 4 = 5 – Chegamos ao número 5.
Justamente o número de livros que formam a Torá (Pentateuco).

  1. O Mashiach (Messias) já aparece no início da Criação?

O segundo versículo da Torá contém uma passagem enigmática:
וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת עַל פְּנֵי הַמָּיִם
VeRuach E-lohim Merachefet al Pnei HaMayim
“E o Espírito de D-us pairava sobre a superfície das águas.”
A expressão וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת VeRuach E-lohim Merachefet é associada, por meio da guimátria, ao valor 1034.
Esse mesmo valor é relacionado à expressão:
זֶה רוּחוֹ שֶׁל מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ Zé Ruchó Shel Melech HaMashiach
“Este é o espírito do Rei Mashiach.”
A interpretação é extraordinária. O Mashiach não seria uma solução criada posteriormente para corrigir um mundo que deu errado.
Ao contrário, a redenção já estaria incorporada ao propósito da Criação desde o seu início.
O destino final estaria presente desde Bereshit.

  1. Seis letras Alefs (א) e seis milênios

Existe ainda mais uma alusão numérica no primeiro versículo da Torá.
A letra Alef א aparece seis vezes no primeiro versículo
Bereshit bará E-lohim et hashamayim ve’et ha’aretz בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱ-לֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ.
Tradicionalmente, o nome da letra Alef אלף (está também associada ao número 1000 – Elef – אלף) já que se esvreve com as mesmas letras. Esse número 6, é relacionado aos seis milênios da história humana, desde a criação do mundo, que antecedem a plenitude da era messiânica. Estamos em 5”787.
Novamente encontramos o mesmo padrão: seis dias da Criação; seis milênios da história; e, ao final, uma realidade de descanso, elevação e redenção.
O número π (Pi) oculto no primeiro versículo da Torá
O primeiro versículo da Torá apresenta uma curiosidade matemática fascinante:
בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ – Bereshit bará E-lohim et hashamayim ve’et ha’aretz. – “No princípio, D’us criou os céus e a terra.” (Bereshit 1:1)
O versículo contém exatamente 7 palavras. Ao somarmos os valores das primeiras letras de cada palavra, encontramos (2+2+1+1+5+6+5) = 22:
Dividindo a soma, 22, pelo número de palavras, 7, obtemos o número π (Pi), cujo valor é aproximadamente 3,141593.
A curiosidade não termina aí. A guimátria total do primeiro versículo da Torá é 2701 (37×73), número que apresenta uma fatoração particularmente interessante, onde os algarismos 3 e 7 também aparecem na expressão:

22/7 = 3+1/7 ≅ 3,14 π (Pi)

Assim, o primeiro versículo de Bereshit reúne relações numéricas que despertam interesse tanto no estudo da guimátria quanto na investigação dos padrões matemáticos presentes no texto bíblico.
Essa distinção permite apresentar a descoberta como uma reflexão fascinante sobre a relação entre a Torá, os números e a estrutura da Criação.
Letras, números e propósito
Bereshit não é apenas a primeira palavra de um livro.
בְּרֵאשִׁית Bereshit inaugura uma maneira judaica de olhar para o universo.
Nada precisa ser visto como aleatório.
Uma letra pode carregar um número.
Um número pode revelar um padrão.
Um padrão pode apontar para uma ideia.
E uma ideia pode revelar algo sobre o propósito da própria Criação.
Do 3,14 associado a π ao valor 2 da letra Beit; dos cinco livros da Torá aos seis milênios da história; da Criação ao Shabat; de Bereshit ao Mashiach.
Tudo aponta para uma mesma ideia: A Criação possui um princípio, uma ordem e um propósito.
E talvez seja exatamente por isso que a Torá começa com uma palavra tão extraordinária:
בְּרֵאשִׁית Bereshit (No princípio).

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