Segredos da Parashá Bereshit: A Geometria Sagrada

A primeira palavra da Torá talvez seja também uma de suas palavras mais estudadas.
בְּרֵאשִׁית, Bereshit, “No princípio”.
São apenas seis letras. Mas, ao longo dos séculos, sábios, comentaristas e cabalistas encontraram nelas uma extraordinária concentração de significados.
Antes, cabe explicar que guimatriót que é o plural de Guimátria, é o estudo da numerologia judaica, permutações e transposiçoes de letras, etc.
As alusões à Criação, ao Shabat (Sábado), à Torá e até ao Mashiach (Messias), entre outras, foram associados à palavra Bereshit que abre toda a Torá.
Neste estudo, vamos explorar de forma suscinta, algumas dessas conexões e descobrir como letras, números e formas podem revelar novas dimensões de Bereshit.
- Bereshit e o mistério do número π (Pi)
Comecemos olhando para a própria palavra:
Bereshit ְּברֵאשִׁית
Uma das leituras tradicionais chama a atenção para elementos que podem ser encontrados dentro dela.
As três primeiras letras formam a palavra Bará בָּרָא, que significa “criou”.
É justamente o verbo que aparece logo no início da Torá:
בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים Bereshit Bará E-lohim
“No princípio, criou D-us …”
Mas há ainda outra combinação interessante de letras:
As três últimas letras formam a palavra שִׁית, Shit. A expressão שִׁית (Shit) pode ser associada, em aramaico, ao número seis.
Suas letras e valores numéricos são:
ש Shin = 300
י Yud = 10
ת Tav = 400
Agora acontece algo curioso.
Se utilizarmos o Mispar Katan, método no qual os valores numéricos das letras são reduzidos aos seus algarismos básicos, teremos:
ש Shin: 300 → 3
י Yud: 10 → 1
ת Tav: 400 → 4
O resultado é:
3 • 1 • 4
Ou, visualmente: 3,14
Imediatamente nos lembramos do número π Pi, a famosa constante matemática que começa por 3,14…
O círculo e a Criação
Pi π representa a relação entre a circunferência de um círculo e seu diâmetro.
O interessante é que formas circulares e cíclicas aparecem por toda a Criação.
No macrocosmo, observamos movimentos de rotação, órbitas, planetas, estrelas e estruturas celestes.
No microcosmo, encontramos óvulos, células, estruturas microscópicas, gotas e diversas formas que evocam padrões circulares ou esféricos.
A leitura simbólica é fascinante:
já na primeira palavra da Torá seria possível encontrar uma alusão matemática à geometria presente na própria Criação.
- Por que a Torá começa com a letra Beit (ב)?
Existe uma pergunta clássica:
Se Alef (א) é a primeira letra do alfabeto hebraico (Alef Beit), por que a Torá começa com Beit (ב), a segunda?
A primeira letra da Torá é:
Beit (ב)
Uma explicação tradicional estabelece um contraste entre duas palavras.
אֲרוּר, Arur, “amaldiçoado”, começa com Alef (א).
Já: בְּרָכָה, Brachá, “bênção”, começa com Beit (ב)
Assim, a Torá teria sido iniciada com a letra de Brachá, bênção.
É como se a primeira letra da Criação já transmitisse uma mensagem:
O mundo deve começar com uma bênção.
O número 2 escondido na letra Beit (ב)
A letra Beit (ב) possui valor numérico 2.
E esse número também permite diferentes leituras.
Dois mundos: A tradição judaica fala de Olam HaZé, este mundo e Olam HaBá, o Mundo Vindouro.
A própria letra que inicia a Torá poderia, portanto, apontar para essas duas dimensões da existência.
Duas dimensões da Torá
Também encontramos:
Torá SheBiChtav, a Torá Escrita e a Torá SheBe’al Pé, a Torá Oral.
Mais uma vez, a letra Beit, de valor 2, torna-se símbolo de uma realidade que possui duas dimensões complementares, ou a dualidade que existe no mundo (dia e noite, céus e terra, macho e fêmea) etc.
- Os segredos interpolados nas letras de Bereshit
As seis letras de Bereshit בְּרֵאשִׁית também deram origem a diferentes associações e rearranjos interpretativos.
Alguns deles são especialmente interessantes.
בֵּית מִקְדָּשׁ, Beit HaMikdash que significa Templo Sagrado.
A associação entre Bereshit e o Beit HaMikdash transmite uma ideia profunda: o Templo e a presença divina no mundo já fariam parte do propósito da Criação desde o princípio.
יָרֵא שַׁבָּת, Yarê Shabat
A expressão pode ser entendida como:
“Temer” ou “respeitar o Shabat (sábado)”.
A mensagem é que o Shabat não aparece apenas no final dos seis dias da Criação.
Ele é o destino para o qual os seis dias caminham.
Trabalhamos durante seis dias, mas o ciclo somente encontra sua plenitude no Shabat.
בְּרִית אֵשׁ, Brit Esh
Brit significa aliança.
Esh significa fogo.
Temos, portanto:
“Aliança (pacto) de fogo”
O fogo é frequentemente utilizado como imagem de força espiritual e da própria Torá.
A combinação sugere que a existência não é apenas matéria. Existe uma aliança espiritual que acompanha a Criação.
1º de Tishrei – א׳ בְּתִשְׁרֵי
Outra associação tradicional relaciona as letras de Bereshit ao primeiro dia (do mês) de Tishrei, Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico).
Isso conecta a abertura da Torá ao tema da criação do mundo e ao início de um novo ciclo.
- Quanto vale a palavra Bereshit?
Agora entramos propriamente no universo da guimátria.
Na guimátria tradicional:
בְּרֵאשִׁית Bereshit בְּרֵאשִׁית = = 913 = (2+200+1+300+10+400)
Esse número também foi relacionado a diferentes ideias espirituais.
Uma delas é a expressão associada a:
בתריג מצות, BeTaryag Mitzvot – Isto é: “Com os 613 mandamentos (preceitos), que é a quantidade de mandamentos encontrada na Torá, lembrando que 6+1+3 = 10”
Considerando métodos tradicionais de equivalência numérica, incluindo o princípio conhecido como im hakolel (acrescentar 1), estabelece-se uma relação entre essas expressões.
A mensagem transmitida é poderosa: o mundo foi criado com um propósito, permitir ao ser humano transformar a realidade por meio das mitzvot (preceitos).
- Um cálculo envolvendo os cinco livros da Torá
Existe ainda outra curiosidade numérica.
Observe os valores atribuídos aos nomes dos cinco livros da Torá:
Bereshit, בְּרֵאשִׁית = 913
Shemot, שְׁמוֹת = 746
Vayikrá, וַיִּקְרָא = 317
Bamidbar, בְּמִדְבַּר = 248
Devarim, דְּבָרִים = 256
Somando: 913 + 746 + 317 + 248 + 256 = 2.480
Agora somamos os algarismos:
2 + 4 + 8 + 0 = 14
E reduzimos novamente:
1 + 4 = 5 – Chegamos ao número 5.
Justamente o número de livros que formam a Torá (Pentateuco).
- O Mashiach (Messias) já aparece no início da Criação?
O segundo versículo da Torá contém uma passagem enigmática:
וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת עַל פְּנֵי הַמָּיִם
VeRuach E-lohim Merachefet al Pnei HaMayim
“E o Espírito de D-us pairava sobre a superfície das águas.”
A expressão וְרוּחַ אֱלֹהִים מְרַחֶפֶת VeRuach E-lohim Merachefet é associada, por meio da guimátria, ao valor 1034.
Esse mesmo valor é relacionado à expressão:
זֶה רוּחוֹ שֶׁל מֶלֶךְ הַמָּשִׁיחַ Zé Ruchó Shel Melech HaMashiach
“Este é o espírito do Rei Mashiach.”
A interpretação é extraordinária. O Mashiach não seria uma solução criada posteriormente para corrigir um mundo que deu errado.
Ao contrário, a redenção já estaria incorporada ao propósito da Criação desde o seu início.
O destino final estaria presente desde Bereshit.
- Seis letras Alefs (א) e seis milênios
Existe ainda mais uma alusão numérica no primeiro versículo da Torá.
A letra Alef א aparece seis vezes no primeiro versículo
Bereshit bará E-lohim et hashamayim ve’et ha’aretz בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱ-לֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ.
Tradicionalmente, o nome da letra Alef אלף (está também associada ao número 1000 – Elef – אלף) já que se esvreve com as mesmas letras. Esse número 6, é relacionado aos seis milênios da história humana, desde a criação do mundo, que antecedem a plenitude da era messiânica. Estamos em 5”787.
Novamente encontramos o mesmo padrão: seis dias da Criação; seis milênios da história; e, ao final, uma realidade de descanso, elevação e redenção.
O número π (Pi) oculto no primeiro versículo da Torá
O primeiro versículo da Torá apresenta uma curiosidade matemática fascinante:
בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ – Bereshit bará E-lohim et hashamayim ve’et ha’aretz. – “No princípio, D’us criou os céus e a terra.” (Bereshit 1:1)
O versículo contém exatamente 7 palavras. Ao somarmos os valores das primeiras letras de cada palavra, encontramos (2+2+1+1+5+6+5) = 22:
Dividindo a soma, 22, pelo número de palavras, 7, obtemos o número π (Pi), cujo valor é aproximadamente 3,141593.
A curiosidade não termina aí. A guimátria total do primeiro versículo da Torá é 2701 (37×73), número que apresenta uma fatoração particularmente interessante, onde os algarismos 3 e 7 também aparecem na expressão:
Assim, o primeiro versículo de Bereshit reúne relações numéricas que despertam interesse tanto no estudo da guimátria quanto na investigação dos padrões matemáticos presentes no texto bíblico.
Essa distinção permite apresentar a descoberta como uma reflexão fascinante sobre a relação entre a Torá, os números e a estrutura da Criação.
Letras, números e propósito
Bereshit não é apenas a primeira palavra de um livro.
בְּרֵאשִׁית Bereshit inaugura uma maneira judaica de olhar para o universo.
Nada precisa ser visto como aleatório.
Uma letra pode carregar um número.
Um número pode revelar um padrão.
Um padrão pode apontar para uma ideia.
E uma ideia pode revelar algo sobre o propósito da própria Criação.
Do 3,14 associado a π ao valor 2 da letra Beit; dos cinco livros da Torá aos seis milênios da história; da Criação ao Shabat; de Bereshit ao Mashiach.
Tudo aponta para uma mesma ideia: A Criação possui um princípio, uma ordem e um propósito.
E talvez seja exatamente por isso que a Torá começa com uma palavra tão extraordinária:
בְּרֵאשִׁית Bereshit (No princípio).
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