A Arca de Noé (Noach) e a Engenharia Naval

David Zumerkorn

14/10/2026 - 13:48

Noé Arca

A Arca de Noé (Noach) e a Engenharia Naval:

A sabedoria das dimensões estabelecidas por D-us

  • Engº David Zumerkorn

Na Parashá Noach (Gênesis – Bereshit), a Torá relata que D-us ordenou a Noach (Noé) a construção de uma Arca (Tevá, תֵּבָה) para preservar a vida durante o Dilúvio (Mabul). “E assim a farás: trezentos côvados será o comprimento da Arca, cinquenta côvados sua largura e trinta côvados sua altura.” (Bereshit 6:15)

Por que essas proporções específicas?

A engenharia naval moderna permite examinar como as medidas poderiam contribuir para flutuação, estabilidade e capacidade. Isso não equivale a demonstrar historicamente a construção nem a resistência da Arca às condições do Dilúvio.

1. Dimensões e capacidade

Adotando, apenas para os cálculos, um côvado de 0,5 metro, temos:

Dimensão Côvados Medida
Comprimento 300 150 m
Largura 50 25 m
Altura 30 15 m
Volume geométrico bruto 450.000 côvados³ 56.250 m³
Área por pavimento 15.000 côvados² 3.750 m²
Área total dos três pavimentos 45.000 côvados² 11.250 m²

150 × 25 × 15 = 56.250 m³

Esses números correspondem a um prisma retangular idealizado. A área e o volume efetivamente utilizáveis seriam menores devido a paredes, estrutura, corredores e compartimentos. Ainda assim, indicam grande capacidade potencial de acomodação.

2. Proporções e finalidade

A proporção entre comprimento e largura é de 6:1; entre comprimento e altura, 10:1; e entre largura e altura, 5:3. Curiosamente, os valores 6,10 e 5 são os das letras ו Vav 6, י Yud 10 e ה Hei 5, utilzadas no Nome mais elevado de D-us (Havaiê – י-ה-ו-ה – Tetragrama).

O comprimento elevado oferece grande capacidade interna, enquanto a largura contribui para a estabilidade transversal. Essas proporções são compatíveis com uma embarcação alongada de deslocamento, cuja finalidade principal seria preservar a carga e os ocupantes, e não alcançar altas velocidades. A arca não teria velas, remos ou leme descritos no texto. Portanto, sua função seria a de um refúgio flutuante temporário.

3. Flutuação e deslocamento

O Princípio de Arquimedes estabelece que a força de empuxo equivale ao peso do líquido deslocado. Em um cenário ilustrativo de casco retangular com metade da altura submersa, o calado seria de 7,5 metros.

V = 150 × 25 × 7,5 = 28.125 m³

Em água doce, esse volume deslocado corresponde a aproximadamente 28.125 toneladas de massa total sustentada, incluindo a própria estrutura, os ocupantes, os animais e os suprimentos. Não representa carga adicional disponível. Em caso de água salgada, a diferença seria real, mas moderada: cerca de 2,5%. Para a arca, isso significaria flutuar cerca de 18 cm mais alta ou, alternativamente, carregar cerca de 700 t adicionais mantendo o mesmo calado de 7,5 m

A borda livre geométrica seria de aproximadamente 7,5 metros. Esse valor não é um dado histórico: depende da carga e do formato real do casco, que não são conhecidos.

4. A largura de 50 côvados e a estabilidade

A estabilidade transversal inicial depende da largura na linha d’água, do calado e da altura do centro de gravidade. Em um casco prismático retangular, o raio metacêntrico transversal (BM) pode ser estimado por:

BM = B² ÷ (12 × T)

Para largura B = 25 m e calado T = 7,5 m:

BM = 25² ÷ (12 × 7,5) = 6,94 m

O centro de carena (KB), nesse modelo, fica a metade do calado:

KB = 7,5 ÷ 2 = 3,75 m

KM = KB + BM = 3,75 + 6,94 = 10,69 m

Portanto, se o centro de gravidade (KG) estivesse abaixo de 10,69 metros a partir do fundo, a altura metacêntrica GM = KM − KG seria positiva, indicando estabilidade transversal inicial positiva para pequenas inclinações no modelo considerado.

É um resultado favorável à lógica das proporções, mas não comprova segurança em grandes inclinações ou ondas extremas.

5. Os três pavimentos

Bereshit 6:16 determina três níveis. Além de ampliar a área de acomodação, essa organização permitiria distribuir a carga de maneira funcional.

Pavimento Utilização 
Inferior Animais maiores, água e suprimentos pesados
Intermediário Animais menores, alimentos e materiais
Superior Família de Noach, acessos e manejo

Manter os elementos mais pesados nos níveis inferiores poderia baixar o centro de gravidade e favorecer a estabilidade. Se integrados estruturalmente ao casco, os pavimentos também poderiam contribuir para sua rigidez.

6. Madeira de Gopher e Kopher

Em Bereshit 6:14, a madeira de Gopher é especificada como material de construção, e o Kopher como revestimento interno e externo. A identidade botânica da madeira permanece incerta, pode ser cipreste, cedro, pinho ou madeira laminada. O revestimento é tradicionalmente entendido como material de vedação, a exemplo de piche ou betume.

A impermeabilização reduziria infiltrações, mas uma embarcação de 150 metros exigiria também resistência a flexão, cisalhamento e torção. O relato bíblico não descreve os reforços, as juntas e as técnicas construtivas, razão pela qual a viabilidade estrutural completa não pode ser demonstrada somente pelas medidas.

7. Uma embarcação para preservar a vida

A Torá não descreve velas, remos ou leme. A finalidade da Arca não era a navegação rápida ou dirigida, mas a preservação de seus ocupantes. Sob esse critério, volume, flutuabilidade, compartimentação e estabilidade são mais relevantes do que velocidade.

A Arca não precisava vencer as águas pela velocidade. Precisava permanecer sobre elas, preservando a vida em seu interior.

Conclusão: a coerência das dimensões estabelecidas por D-us

As medidas de 300 × 50 × 30 côvados apresentam uma lógica muito funcional reconhecível: comprimento para capacidade, largura que pode favorecer a estabilidade transversal e altura que permite três pavimentos e borda livre.

Em particular, o modelo hidrostático simplificado mostra que a largura de 50 côvados pode oferecer contribuição expressiva à estabilidade inicial, desde que o centro de gravidade permaneça suficientemente baixo.

Esses cálculos mostram que as dimensões descritas na Torá são compatíveis com os princípios fundamentais da flutuação e apresentam características favoráveis à finalidade de uma embarcação de refúgio.

Na perspectiva da fé, essas proporções integram a sabedoria divina. Na perspectiva técnica, elas revelam uma coerência geométrica digna de atenção. A Arca de Noach não foi concebida para conquistar os mares, mas para preservar a vida em meio às águas; suas excepcionais proporções apresentam uma notável adequação a essa missão.

Importante: Considerando os materiais e os recursos tecnológicos disponíveis à época, o projeto da Arca de Noach revela uma notável racionalidade construtiva e uma impressionante adequação à sua finalidade. As proporções de 300 × 50 × 30 côvados (aprox. 0,5m) demonstram uma combinação funcional entre capacidade de armazenamento, estabilidade transversal e aproveitamento vertical do espaço, características particularmente relevantes para uma embarcação de grandes dimensões construída predominantemente em madeira.

O aspecto mais admirável reside no fato de que, mesmo diante das limitações técnicas e materiais daquele período, as dimensões prescritas na Torá apresentam características compatíveis com princípios fundamentais da engenharia naval, especialmente os relacionados à flutuação e à estabilidade hidrostática.

Assim, a Arca não se destaca apenas por suas dimensões monumentais, mas pela coerência de suas proporções e pela adequação de sua concepção ao propósito de preservar a vida. Sob essa perspectiva, as medidas estabelecidas por D-us revelam uma solução extraordinariamente funcional para uma embarcação concebida não para navegar, mas para resistir, flutuar e proteger seus ocupantes em condições extremas.

Referências: Torá, Bereshit 6:14–16 (Sefaria); Naval and Mechanical Engineering MIT –  material didático de arquitetura naval.

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